whatsapp_109861.png

© 2019 Todos os direitos reservados

  • Facebook - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • YouTube - Black Circle

By

POESIAS

Mão Preta

Tijolo posto

Por ordem de um arquiteto,

Mas o teto

ele não sabe levantar.

Edifício enorme

que de longe se enxergue

quem ergue?

Mão preta!

Escudo de preto

Na linha de frente dos palácios

Ricaços curtem a festa

A desritmada dança e a segurança, quem faz?

Mão Preta

Quitutes, sobremesas, manjares

Quem é que fazer?

Experimenta por dona Bia na cozinha

não conseguiria

Mesmo sendo nutricionista

Especialista na cozinha,

tem mão Preta

O anel com pedra de diamante

Pro evento de debutante de sua filha

quem que extraíra?

No minério seu império

Nada seria

Se lá na mina, na gruta

A luta pra remover a pedra

na caverna escura

escura também a sua pele

Mão Preta

Quem que te leva em segurança,

Que pega as suas crianças,

Os filhos dos Bitencú

Aqueles capeta

Seus caminhos quem conduz?

mão Preta!

A engrenagem dos trilhos,

O alpiste dos seus passarinhos,

O depósito do seu cheque,

O paletó na lavanderia do seu chefe,

O eletricista do abajur do seu escritório,

Quem que cava a cova do seu velório?

Contabiliza!

Se por um dia a mão preta, pare-se

Se afasta-se dos serviços

(Risos)

Porque a gente movimenta esse lugar

Vivemos um crime social

E na moral

Você não paga o meu salário a movimentação do monetário

É o meu suor a percorrer

que faz pagar

A casa grande entrará em choque

Quando em seus estoques

não tiver mais Mão Preta

Pra puder cuidar.

Metade de mim desespera

Metade de mim diz, espera.

A Bença Mãe

 

Sobre minha cabeça grãos,

Movimentos sublimes,

Mãos firmes,

a me cuidar

O canto Yorubá

De segredos que não ei de perguntar

Amarelo, verde, marrom e preto

Sob pratos brancos

Um banho de sementes

que de correntes

Viera me libertar

Iya, seu bailado na dança

Mostra abundância

Na herança

Que carrega

Nega veia

Mãe, mulher, militante.

Defende a todo instante

Cultura sua!

Seu bailado um reinado

de graciosidade

Sensualidade de Osun

destreza de Ogum

E não tem nenhum

Homem na terra

com força igual você,

Pelos cuidados me ofertado

Só agradeço

Pela divisão do fardo

Se depois do encantamentos descritos

Enxergarem perigo

na filosofia de vida

Não há mandinga

que fará mudar

Preciso exterminar preconceito,

pisar no terreiro

e se permitir.

E se ainda assim

Preconceito houver,

Nem Jesus na causa,

Só resta abrir mão

Caminhos, e lavar a alma.

O Levante

Do que me importa sua ditadura da beleza

Trago em meu sorriso

Soberana realeza

Os atabaques soam das minhas mãos

As mesmas que provêm o pão

A percussão não é restrita só ao homem

das mãos das mulheres se tem valia

Porque desde os tempos da África

Que o tambor batia

Pelas mãos dessas guerreiras

Maculelê, Jongo, Samba de Coco, Capoeira

E se cambaleio sem muito saber me encontrar

quando ouço o atabaque

que me faz serenar

Daí vem a certeza

Que o leite materno do seio da mãe negra

não foi só o que me fez alimentar

das suas entranhas sai

e o meu choro se fez canção

entoavam em meu choro

pulsação

de dores que mares me trouxe

Sou resistência de açoites

Me ergo

Renovo

Nzinga menina eu!

Que sobreviveu

a gerações de tortura

e não me venha com sua ditadura

me fazer regressar

Eu sei de onde vim

de onde tudo começou

e se na história não me vejo

Me reascendo no fogo

que afina o couro do tambor

Identidade Negra

Não me chame de crioula

porque eu posso interpretar

que você é meu senhor

querendo me abusar

Parda não é normal

porque não sou filha de pardal

E morena o que seria?

Uma nova etnia?

Pra mim uma palavra sem classificação

então me chame de negra

porque sou filha de negrão

---

Metade de mim desespera

Metade de mim diz, espera.

Levanta Preta!

Levanta Preta

Levanta a cabeça

Porque não dá tempo pra lamentar

Enquanto chora as chagas do coração

Há os meninos querendo sair pelo portão,

e a roupa pra lavar

A roupa tá lavada e precisa ser estendida

e depois de estendida

Tira pra chuva não molhar

A chuva de Oxalá

Vem

Deixa elas também seu corpo tocar

Levanta a cabeça preta

Porque o turbante fica melhor

enaltecido

E saiba que o que aconteceu contigo

Não é a primeira vez no mundo

e nem a última será

Díspar

Enquanto desliza as águas a banhar

Quando toca o ori

refrigera pensamentos

e descendo

pela face mistura com as águas dos olhos

Nos poros faz carícias

E é por isso que precisa

deixar banhar

Levanta a cabeça preta!

Porque a coroa com teus cachos

Eu não só acho,

mas tenho certeza

Que toda sua realeza

Não combina com essa tristeza

e que você só mereça

Os raios de sol

que tem o teu sorriso

E que amar é preciso

Se não for machucar

Preta

Há uma continuação de teu reinado

que do seu ventre fora gerado

Então joga no chão esse fardo

E sorria!!!

Porque de novo se fez dia

e tens a chance de recomeçar

Mãe Autônoma

Impressionante o quanto

A guarda dos filhos é da mulher

Ora se não é?

Quando há a separação

quem que fica com a prestação

do inalador

que não sara a dor dessa ferida

Fica aberta

Pingando sangue

E se não fosse o bastante

A saúde mental da mulher

Sofre

Porque ela a todos socorre

Mas não há quem

cuide de suas feridas

Internas, físicas, psicológicas

Numa separação

não existe pai que proponha

Guarda compartilhada

É a mãe que fica com toda a carga

Ela já não tem mais

Tempo pra produzir

pra se cuidar

uma vida social

uma amiga que levante seu astral

Uma viagem pro litoral

um bom livro na sua prateleira arsenal

Um churrasco sem crianças no quintal

Seu dinheiro

é pra todo é pra suprir o financiamento familiar

Pra contas a pagar

Ja não sabe mais o que é cabeleireiro

Nem fazer a unha

Mas o que mais a tortura

é o descaso

esse não dividir o fardo

De um fruto que outrora

Era o melhor plano dos dois

De nós

após

Só os nós

que a mãe autônoma tende a desatar

Dinheiro da pensão

não paga a ausência

a ciência de que o primeiro passo

Passou e não se viu

O dente caiu

já nasceu

E você nem olhou

o choro gritou

e também em seu peito

Éramos nós 3 querendo leito

E o desespero é tanto

que chora filhos de um lado

É a mãe num outro canto.

Num entanto, tem um tanto de roupa no tanque

pra exercer

tem a matéria dos filhos pra resolver

Tem o almoço pra fazer

tem que providenciar a mistura pra comer

Já pagou a conta de água, de luz, de telefone

Agora chega e da TV

Deu o horário de levar os meninos na escola

Aproveita leva uma sacola

e passa no mercado

Acabou o leite e o achocolatado.

Ai meu Deus o agasalho não serve mais

O aluguel tá pesado

Mas não da pra voltar pra casa dos pais

Ela equilibra

tudo isso com duas mãos

com um coração

que ainda pinga sangue

Mas seus filhos a todo instante

é com ela que contam

que sabem que tem refúgio

enquanto fugo dos prazeres

tento fingir que os afazeres

são meus dotes

mas o bote virou já faz tempo

vejo o quanto mãe

é terra firmamento

só hoje entendo

o que enfrentou minha rainha

quando nos preparou gororoba com farinha

Na falta do pão

macarrão

nunca houve filé mignon

Pra cada mãe se deve uma estatueta

Toda mãe na devesa do filho é porreta

enfrenta as treta

e põe sorriso nos lábios

Faz acontecer o milagre multiplicar

é por isso que no coração de mãe sempre há

Mais um espaço

que é maneira de tapar buracos e sentir-se importante

toda mãe e um diamante

Toda mãe vale ouro

em seu mais alto quilate

agora tem pai

que só late, achando enriqueceremos com o dinheiro da pensão

que com seu pouco dinheiro, tudo será provido

Há diferença é que mãe e pedra preciosa

e tem pai

Que só é um caco de vidro.