CONTOS

Resignificância

O calor dessa vez não era dos corpos que se tocavam pela primeira vez, e nem era a mesma sinfonia que o coração tocava quando no colar do abraço o coração (dele) palpitou. Agora era um outro ritmo era um outro cenário mesmo que na mesma cidade.
Dessa vez seu coração batia acelerado, mas com uma solidão do vazio de chegar no aeroporto. Os devaneios que ela trouxe nas malas com intuito devolver tudo que ele deixara em sua casa, tudo que era resquício dele ela despachou...
Ao pisar em terra firme, ela carrega uma esperança utópica de que ele a surpreenderia e aparecia , bem queria que ele ali tivesse. Nada.
Uma hora e meia tentando transformar pesadelo em sonho.
Quando sai do ar condicionado do aeroporto , o calor da orla a abraça , a fumaça do dendê hipnotiza , tudo isso faz ela retomar a estima e ressignificar a viagem.
O Uber é simpático com a moça , faz apresentar cada canto de todos os santos, tal como se fosse guia turístico. Ela viajava, não viagem esta da Bahia, mas a viagem que seus pensamentos a levava, iansã com sua brisa a acalmava.
A moça é de peixes, e estava ela defronte ao mar, Iemanjá a cuidava, seu ori são, sadio.
O moço do Uber diz ao fim da corrida, quando a moça do gps diz “Chegamos ao destino” , que estava encantado pela moça, ela o olha nos olhos, agradece o carinho e sorri sem dentes, desse sorriso que só seu outro amor sabia decifrar (riso de timidez).
Ela sabe que carrega uma magnitude, é como se andasse e jogasse glitter em seu próprio caminho, aprendeu reconhecer esses fascínio de fascinar.
Seu pai quando pequena a embalava nos braços acarinhava seus cabelos e sussurrava:
- Essa é minha Osunzinha. Minha Osunzinha.
essa memoria a atravessa no mesmo instante de a lagrima salgada como as aguas de Iemanjá percorre a pele preta, da preta.
Ela lembra do reinado que ela vem.
Da realeza que és.
O canto é que guia a moça, faz melhor do que qualquer aplicativo de localização, ela segue a canção.
“Mar amando , mar amando, vem em mim
Mar amando , mar amando, até o fim”
Era voz feminina doce, como bolinho de estudante, banana da terra...
O encontro desse canto a faz ganhar um abraço, embalado por ritmo Ijexá ela permite desatrofiar o corpo e seu corpo rescende as memorias de como dançar, isso é herança ancestral, ela ouve a intuição , ouvir a intuição sempre foi sua playlist predileta.
Faz seu cortejo “ espalhando glitter” até o pelourinho, o samba duro a faz amolecer, o riso antes sem dentes faz esbanjar em gargalhadas, ela vive por ela, sua canga a torneia, suas curvas no misto de alegria e transparência oferecida pelo tecido , leve, quase solto.
Sabia de cor a discografia o Ilê Aye, porque mesmo nascendo na cidade Cinza ela não se identifica com o lugar... Desfruta, comunga , fartura de tudo como a Bahia é , ela tinha isso no corpo, ancestralidade tinha ela.
Na exaustão de dançar compra uma agua de coco, e surpreende-se com garçom que traz pra ela a agua de coco e uma porção não pedida, ela franze as sombrancelhas, olha pro garçom e antes de poder questionar, o rapaz diz, tem um bilhete em baixo...
O bilhete dizia:
Para o sorriso mais bonito do Pelourinho...
Ela interpreta uma espécie de buquê
A porção era de camarão
E o admirador secreto de Sango...

 

A negativa é pra esquerda Aide!

A moça nem precisava passar rasteira, ela deixava angoleiro no chão, toda vez que dava um rabo de arraia, seus cabelos movimentavam-se com ondas semelhantes à do mar, perfumavam e hipnotizavam os companheiros de roda, era difícil manter bateria de berimbaus ritmada. A ginga dela mexia com toda a senzala...
Seu cabelo de movimentos como o mar, deixava o marinheiro, marinheiro, marinheiro, só. Só em devaneios de como fazer pra dar jogo.
Sua pela tinha mesma tonalidade que o Hungo (como berimbau é chamado na África)
quando ela cantava eram em cantos iorubanos , angoleiro ficava doido não conseguir responder o coro mais se permite embalar.
O encanto era tanto que no jogo de dentro, o movimento invertido passava desapercebido por quem jogava com a moça.
Por ser vaidosa Ayde, treinava em frente ao espelho perfumada, mesmo que o suor fosse misturar e intensificar outro aroma. Romã era a essência que gera.
Seus treinos eram semanais as quartas com seu grupo e os demais dias em seu quintal. Vizinhos que a espionavam treinar, não acreditavam que braços e pernas tão delicados fossem capazes de se sustentarem em uma bananeira, girarem com velocidade em um rabo de arraia ou mesmo conter a jeito e agilidade de uma rasteira. Porém Ayde tinha uma pequena dislexia, a moça tinha dificuldades com direita e esquerda , chega eram bobos os erros que cometia...
Segredo de Aiye era a dificuldade dela com esquerda e direita , por isso ela treinava em toda véspera das aulas em frente ao espelho, que também dificultava , pois o espelho mostra imagem invertida...
A moça da pele cor de biriba, vivia esse dilema de acertar! Se exigia demais, sofria com erros pequenos. É que cresceu sendo apontada, sempre disseram a ela, precisar ser 2x melhor, a frase pesava uma tonelada....
Até que em uma sexta feira , onde toda capoeira veste branco, numa roda tradicional e milenar de seu grupo, seu professor que tem idade pouca mais sabedora de um griot, ouve Ayde questionar com uma amiga de roda que não saber fazer assim. (O que era assim? O que era assado?)
O professor passar os olhos, com a inteligência de quem faz uma chamada e volta a compor no chão a roda com palmas de mão e afinação no couro.
Ela sempre passava a vez quando tinha de jogar com seu professor, havia um amor platônico por ela, que ela não conseguia olhar nos olhos, exigência necessária pra um jogo jogado... Se ela fizesse , ( o olhar nos olhos) feitiço viária contra feiticeiro. Era Ayde a dona de encantar...
Sua amiga que era cumplice desse segredo, ria discretamente toda vez que essa cena se dava, era engraçado ver como a mulher virava menina de um instante pra outro, quase o mesmo que ver gelo, se derreter em agua no calor de Salvador, a rapidez da mudança de estado da menina mulher.
Quando a roda acaba depois de jogo lindo onde o Mestre chamou os mais soltinhos pra um jogo de compra e mostrou a paciência que é reverencia na capoeira , onde devagar ainda é pressa... E entenderam a filosofia
O atabaque começa a soar, o samba de roda começa !!!
Quem veio antes abre a roda, e as mulheres rainhas , companheiras de mestres iniciam o a celebração, ali cada uma mostra sua malemolência, hora com sorriso hora com cintura.
Menos Ayde, que era ousada e sabia mostrar das duas formas, pronto mais uma sessão de hipnose , o atabaque que fora afinado primeiro já estava pra desafinar, São Paulo faz frio...  Mas quando a umbigada, convida Ayde a entrar na roda, ela se aproxima do ancestral atabaque pede agô e dança enfrente a ele! Logo o couro responde, aquece com o calor da moça e toca novamente com seu timbre inicial, grave.
E gravada na memória fica, Ayde ao chegar em sua casa, desliza com os dedos pro lado as fotos que fizera do dia, e ri sozinha em sua cama de lençóis pasteis. Capoeira também é forma de banho, alma lavada e energia renovada, ela conclui que o investimento é esse insistir seu tempo nesse lugar, pois não se ensina experiencia.
Já é quarta feira de novo, na terça houve o treino prévio da mesma com o jardim, espelho e consigo. Ela gritava:
Eu consigo! E eis que o au se deu.
Foi no treino de quarta com orgulho de ter aprendido o movimento, com perfeição, (perfeição que só ela exigia). Mais hora do treino seu professor pede que aplique o au com a outra perna, pra se trabalhar o lado esquerdo, que culturalmente é menos usado por nos. Pronto! A menina trava toda se vê perdida em meios aos colegas, soa as mãos, vai tentar o au pro lado oposto que ela não treinou e desliza, quase cai , com o suor nascente nas mãos, que em contato com o chão pra fazer o movimento , baila nesse atrito , mão e chão, chão e mão, suada. E a moça cai.
Recomeça, cai de novo, e segue ate o fim das filas formadas, no penúltimo movimento faz quase que certo. Mas não faz.
Fim de treino abraços, sem a palma das mãos encostarem nas camisas alvas. O mestre chama Ayde de canto, pela sensibilidade de um griot, percebe na moça semblante de frustação. Pergunta a ela o que está havendo e quais dificuldades. Ela se envergonha a dizer, mais diz.
- Eu tenho feito errado, não acerto o movimento, a negativa é pra direita eu vou pra esquerda, o corpo diz uma coisa a cabeça outra.
O mestre diz, jogar Capoeira também é só entrar na roda e sair, pois ao entrar e sair você com o corpo responde que aceitou o convite, de dançar. A intenção já é grandiosa por si só, por ter tido vontade em fazer. Não é pirueta no ar...
Foi pra casa, revirando essas frases, olhou por baixo, fez a chamada, gingou, deu au, chamou na tesoura, aplicou a cabeçada. Tudo isso com a frase que recebera, ela procurava entender a mandiga desses dizeres.
Sexta feira outra , a moça encara a roda, ela entendeu que seu corpo só estava atrofiado pra capoeira, anos de sequelas faz isso, as vezes a gente acha que não é capaz de desempenhar aquilo que é nosso como herança, experiencia não se explica, e a vontade de querer matar o banzo faz com que ela decida vesti seu manto branco , canta couro, bate mão, a anergia é de dendê , quentura se da. Pra sua surpresa seu mestre pula a vez pra jogar com ela, já não era capoeira, era balé ! Ou era capoeira mesmo com a sincronia mais bonita de uma dança. Houve o encarrar dos olhos, houve o encaixar o corpo, não houve ego pra execução de tal, houve respeitar o movimento do outro, o tempo de passar uma perna, um braço, houve Capoeira!
Quando o perfume de ambos se exalam, na fusão em vapor espalhar por toda a senzala , o encanto de Ayde é quebrado, todos não se fazem apaixonar, apenas o amado antes platônico.
Ao finalizarem o jogo ele sussurra em seu ouvido dizendo, consegui jogar com você, porque eu não sou destro.

O nó da madeira

 

O nó é aquilo que deixa firmado. Consiste em apertar o que está frouxo... é o ato de estreitar.

Madeira? Ah... Madeira já é a comida que como. Não necessariamente mastigar a viga, mas em toda minha vida, a madeira nos alimentou. Respondi, quando me perguntaram, numa aula de filosofia, sobre o termo “O nó da madeira”, titulo da musica de Joao Nogueira , da qual o professor era fã.

O sinal toca e a aula se encerra. Vou para o intervalo com borboletas no estômago, na cabeça, nos olhos, que fixam um ponto e ficam imóveis. As pálpebras, para quem vê, parecem olhar o nada. Que nada:  em pensamentos e mergulho em ideias de papai:

Havia um soldado na marcenaria. Ele vestia um capacete para proteção ao manusear o esmeril. Eu, quando o via, via Ogum, e não meu pai. Sacudia a cabeça tentando voltar a realidade. E a realidade era aquela. O fogo que saia da máquina parecia não queimar o guerreiro, o Ogum - ops! - meu pai. Ele não trajava armadura. Sua pele Imbuia o protegia.

Saia mágica daquele lugar. Não como na fantástica fábrica de chocolate... Mas todo chocolate que eu ganhara viera de lá, da oficina. Minhas primeiras bonecas eram de estopa, objeto feito por fibras de algodão, liso , que no atrito de madeira e de mãos calejadas, em movimentos circulares, formam a estopa.

Era a melhor boneca, porque estava ali todo a energia de meu pai, que me protegia do vento, quem dirá dos garotos...

Vi compensado virar mesa, cama, cadeira, porta, gabinete... Como que não era mágica? Mas também vi madeira virar sorriso. Das pessoas que adquiriam os móveis de meu pai. E vi também a felicidade de transformar cômodos com eco, preenchidos sob medida com os móveis do moço, guerreiro, Ogum - ops! - meu pai.

Danei a escrever nos tocos de madeira que meu pai não usava, com um lápis vermelho , apontado por estilete, que ele usava. Escrevia tudo que vinha  à minha cabeça, sobre os melhores perfumes, que não eram das marcas importadas: madeira, serragem, thinner, cola, verniz, tudo cheiro raiz - e não nutela.

Eram palavras postas na madeira. Nunca pensei ser poesia.

Uma vez, no natal, pedi ao meu pai uma furadeira de presente de aniversário. Ele achou hilário e, obviamente, não deu. Disse que  tinha de arrumar profissão que não a deixasse com calos na mão. Meu bico logo se formou.

Eu queria formão, serrote, martelo, prego, parafusos, buchas, trena, lixadeira, alicate, desempenadeira. Uma maleta com tudo isso.

O policial do sono me acorda - despertador é agressivo tal como.~;ç] Levanto lentamente. Vou ao banheiro e escovo os dentes.

Dentre as pernas de meu pai sento-me no chão para que ele , com o pente de madeira feito especialmente para mim, penteasse-me para ir à aula, estava como Rainha...

Vejo os horário no caderno e a primeira aula é de filosofia. Eu Magda, apresento ao professor o texto pedido na aula anterior, sobre o nó na madeira. O texto que eu entregara  tinha nada haver com o assunto proposto sou de piscina, tendo a viajar...

Mas o professor se impressiona com o escrito e diz: Poesia!

Olho para meus colegas de classe sem entender. Os colegas de classe também não me entendem.

O professor convoca meus pais para uma reunião. Minha mãe se surpreende, pois nunca fora intimada à escola: Eu era exemplar!

Na sala dos professores oferecem café aos meus pais. Recebem também um pedido para acalmarem-se, estava tudo bem!

Diz o professor, na sala, que eu tinha um dom, o dom da palavra. Sempre era eu a escolhida pelo grupo a ler o texto, por ser desinibida, por ter voz firme. No grêmio era eu a protagonista das ideias mais democráticas. E também fazia texto para os amigos com mais dificuldades - e isso ele fingia não ver. Mas o meu texto sobre o nó da madeira me impressionou

A pele de minha mãe se avermelha, com o sorriso de quem sabia quem estava criando. Lembra da agenda marrom, que armazenava na prateleira do armário sem porta: casa de ferreiro espeto de pau rs . um dia o  descobri,. Eram os escritos da mãe, ora salmos, ora desabafos,escritas com lágrimas. Tinha até a marca de gotas nas páginas...

O pai lembra da frase:

“Sem calos na mãos menina!” Sorriu, também orgulhoso.

Chegando em casa, ambos contam a mim o motivo da reunião. Pergunta-me se queria brincar de ser poeta. Nada entendi.... Aceitei!

...

Quando meu 1º livro sai, torna-se best seller da quebrada. Só minha família, que é grande demais, fica com a metade da primeira tiragem. Assino livros, autografa, e nunca brincou de se imaginar nesse lugar conquistado.

Discurso:

Fui sustentada por madeira toda minha vida. Agora, eis que também sustento a minha família com madeira.

Sou ramificação de meu pai. Ele fazia poesia com madeira. Eu também o faço. Comungo do derivado da madeira, escrevo na celulose com o lápis, que também é madeira. Às vezes é com caneta que escrevo: contratos e dedicatórias apenas. Mas a fonte de inspiração precisa ser em folha de caderno e lápis, pq a sinfonia do atrito da madeira com grafite e a folha, inspiram mais! O moço, o guerreiro, Ogum - ops - meu pai, escreve poesia como móveis. Eu com a folha da madeira.

...

Peço ao meu pai, de natal, uma escrivaninha de mogno, para mim, Magda.

Ereziando

Para escrever este texto, eu ativei o lápis que fica na ponta da minha unha, que é o meu super poder quase secreto.

 

Quando eu fecho os olhos bem forte, posso acessar as vezes que fui criança junto com os meus (não tô falando só de Bryan e Brenno), tô falando de toda criança que se sentiu aninhada em meu colo.

 

Nessas memórias me vêm as vezes em que fui criança com elas... Meus filhos escreveram um livro, esse livro trouxe fãs pra eles, eles quiseram aprender a autografar. Os meus filhos têm 8 anos, quando fizeram o livro tinham 3. Sim ! Porque reconheci na oralidade de meus erês (criança em yoruba) como eles eram potências literárias  

 

Com meus filhos autores, vi como cada espaço perdeu o privilégio de abrigar essas potências que eles são quando nos convidaram a nos retirar a cada:

 

-Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu!!!

 

Eram espaços adultos demais e por isso tivemos alergia.

 

A gente sempre leu histórias clássicas: do príncipe encantado, da princesinha, até dos monstros, mas nem os meus filhos e nem eu, em minha infância, pudemos compor as características dos personagens quando havia festas à fantasia. Não tinha pra mim a Preta de Neve, pra eles nao tinha os super gêmeos ativar com mais melanina…

 

Então, eles me disseram que eu era mais forte do que qualquer super-herói, porque eu escrevia e, escrevendo, podia eu (junto a eles, escolhendo nome, cor de roupa, objeto ou não), criar um personagem mais forte que aniquilasse outrem. Uauuu! Eu mesma nunca pensei isso.

 

Com os fãs dos ibejis (gêmeos em Yoruba) vieram presentes recebidos, e um desses foi uma piscina, mas quem ganhou a piscina foi todo o bairro, porque antes nossa casa era o cartão postal da quebrada por ter uma rede, onde todas as crianças pós-creche, escola, projeto e natação paravam, happy hour dos erês. Agora, com a piscina, toda bermuda virou sunga, e todo vestido maiô, esse é o super poder das crianças.

 

Preparei um lanche pra elas enquanto as via brincar pela janela da cozinha que dá pro quintal e o pé de acerola. Miguel, o mais pequenino dos erês, veio a mim e disse: "Tia Thata, você é a mais rica, né? Porque você dá comida pra todos nós e amanhã tem de novo".

 

Nesse momento, a unha desativou o modo lápis, e o ponto final, que não é ponto final e sim reticências, foi assinado por Miguel.

 

Coisa de anjo mesmo…

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